Mudanças climáticas: um prato cheio para as alergias

As baixas temperaturas são um perigo para quem sofre com problemas respiratórios

Alergias respiratórias causam danos físicos, psicológicos e também econômicos

As mudanças climáticas não trazem consequências apenas ao nosso planeta, mas, sobretudo, ao “ecossistema” do organismo. Elas são apontadas como as grandes responsáveis pelo aumento da incidência de alergias, trazendo um impacto socioeconômico significativo sobre o paciente, a família e a sociedade.

As alterações climáticas afetam os alimentos, a qualidade do ar e da água, a economia e muitos outros fatores da saúde, e representam uma ameaça global que poderá agravar outras doenças do século 21. “Os principais determinantes de emissões de gases de efeito estufa são a produção de energia, transporte, agricultura, produção de alimentos e gestão de resíduos, e as tentativas de atenuar as alterações climáticas terão de lidar com cada uma delas”, comenta Ignacio Ansotegui, presidente da WAO (World Allergy Organization).

A alergia pode ser causada por prediposição genética ou estímulos do meio ambiente e o aumento da prevalência é causado por uma alteração dessa predisposição ou dos estímulos ambientais alergênicos. Segundo ele, as doenças alérgicas afetam o funcionamento físico, psicológico e social do paciente e têm consequências financeiras. Só na Europa, representam as doenças crônicas mais frequentes, afetando, “com as estimativas mais conservadoras”, a vida diária de mais de 60 milhões de pessoas.

“É claro que apenas poderosos estímulos externos podem induzir alterações genéticas agudas, imediatamente visíveis, na mesma ou na geração seguinte”, afirma o professor, um dos palestrantes internacionais confirmados para o XLIII Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia, aberto dia 28 e que acontece até sábado (1º de outubro), em Curitiba.

Esofagite eosinofílica se confunde com refluxo

Um dos temas tratados no evento é a esofagite eosinofílica,  uma doença do esôfago geralmente relacionada à alergia alimentar, que se confunde com a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). A doença pode acometer tanto homens quanto mulheres, em todas as faixas etárias, sendo a maioria em adultos do sexo masculino. É possível que vários casos, com início na infância e adolescência, sejam diagnosticados somente na vida adulta.

Os especialistas das áreas de alergia, imunologia e gastroenterologia são os indicados para diagnosticar a doença, que apresenta sintomas como vômitos, disfagia (dificuldade de deglutição), dor abdominal e dor torácica. “Frequentemente, os pacientes são inicialmente diagnosticados como portadores de DRGE. Contudo, a suspeita diagnóstica ocorre quando os pacientes não respondem ao tratamento padrão para DRGE (inibidor de bomba de próton)”, conta Norma Rubini, vice-presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e palestrante do XLIII Congresso.

Segundo Norma, o diagnóstico de esofagite eosinofílica é baseado em critérios clínicos e histopatológicos (biópsia de esôfago), uma vez que não existe um exame específico para reconhecer a doença. “São considerados os sintomas clínicos sugestivos, associados à presença na mucosa esofágica de > 15 eosinófilos (através de endoscopia digestiva alta e biópsia de esôfago) e da exclusão de outras doenças que cursam com infiltração eosinofílica no esôfago”.

Um percentual significativo de pacientes com esofagite eosinofílica apresenta alergia alimentar. Assim, o tratamento é feito com base na união de dieta restritiva e medicamentos. Os principais alimentos identificados como desencadeantes da alergia alimentar e, consequentemente, da esofagite eosinofílica são leite de vaca, trigo, ovo, soja e peixes/frutos do mar.

“O tratamento medicamentoso é realizado através de formulações de corticoides inalados aplicados via oral e deglutidos. Em casos graves, em que ocorre grande estreitamento do esôfago e impactação de alimentos, pode ser necessária a realização de dilatação esofageana”, explica a especialista.

Segundo ela, não há ainda cura da esofagite eosinofílica, mas, com a combinação de dieta e terapia medicamentosa, é possível controlar os sintomas, resultando em boa qualidade de vida ao paciente. Atualmente, estão em curso várias pesquisas investigando o uso de anticorpos monoclonais e outros fármacos no tratamento da doença.

Urticária crônica

Outro tema em destaque no  XLIII Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia é a urticária crônica (UC), que se caracteriza pela presença de pápulas com ou sem angioedema (inchaço), com mais de seis semanas de duração. É uma doença inflamatória cutânea altamente predominante, que constitui uma causa frequente de consulta médica. A sua prevalência na vida é de 8 a 10% da população e mais frequentemente afeta as mulheres entre 20 e 59 anos de idade. Em até 50% dos pacientes a remissão da doença ocorre em três meses, e em até 80% em 12 meses. Em cerca de 11% deles a urticária crônica dura mais de cinco anos.

“Estudos que utilizaram questionários específicos mostraram que a UC interfere fortemente na qualidade de vida do paciente, em todos os aspectos físicos e mentais. As pessoas que sofrem de UC, frequentemente, desenvolvem problemas de depressão, ansiedade e distúrbios do sono. Em consequência, constata-se absenteísmo no trabalho e perda de produtividade”, afirma o professor Mario Sanchez-Borges, presidente da WAO (World Allergy Organization) e palestrante do.

As visitas frequentes ao consultório médico, salas de emergência e internações hospitalares por exacerbações da doença – juntamente com a aplicação de vários exames complementares e diferentes medicamentos – implicam em encargo econômico para o paciente e os serviços de saúde. “Uma vez que os mecanismos de UC não são completamente compreendidos, muitas vezes, paciente e médico se sentem desencorajados e desorientados porque estão lidando com uma condição ‘idiopática’ ou ‘espontânea’, onde em cerca de 70% dos casos não é possível identificar causas internas ou externas”, complementa Sanchez-Borges.

Atualmente, o objetivo do tratamento para pacientes com urticária espontânea/idiopática crônica é o controle completo dos sintomas. A primeira linha de tratamento é com anti-histamínicos em doses recomendadas de segunda geração (não sedativos). Para os pacientes que não melhoram com esta primeira abordagem, o aumento das doses de anti-histamínicos induzido proporciona melhor controle dos sintomas, sem aumento de efeitos adversos.

Finalmente, para casos graves que não respondem a anti-histamínicos, uma terceira linha de terapia consiste na adição de outros anti-inflamatórios, moduladores imunes ou medicamentos biológicos. “Os antagonistas de receptores de leucotrienos, anticorpo monoclonal anti-IgE (Omalizumab) e ciclosporina A são as drogas atualmente recomendadas neste passo”, explica o especialista.

A boa notícia, diz ele, é que, com a incorporação destes medicamentos, e outros sob investigação, “muitos pacientes que tinham vidas miseráveis por causa das lesões de pele, coceira intensa e dor, e até mesmo desfiguração de angioedema, agora têm a esperança renovada por causa de melhores terapias que lhes permitam ter uma vida mais proveitosa e feliz”.

Confira outros temas do evento

Com o tema “A vida com alergia: da criança ao idoso”, o  XLIII Congresso de Alergia e Imunologiaestima um público de 1.500 pessoas e traz a atualização e novidades sobre os tratamentos de alergias. Entre os temas selecionados estão ‘Imunoterapia’, ‘Anafilaxia’, ‘Alergia a pólen’, ‘O microbioma e desenvolvimento de doenças alérgicas’, ‘Desafios em urticária e dermatite atópica’.

Imunoterapia para Alergia a Insetos – é o tratamento mais efetivo para alergia a veneno de abelhas, vespas e formigas, com uma eficácia de 98%. A técnica é por via subcutânea e tem duração de três anos. A pessoa só estará protegida depois de um mês e meio após ter recebido a vacina. As reações alérgicas por venenos de insetos são graves, rápidas e podem ser fatais.

Alergia Veterinária – O tema é inédito no Congresso. Dentre as discussões sobre o assunto está a asma em cavalos ou asma equina, doença comum que atinge cerca de 15% a 20% em diferentes raças, a partir dos sete anos de idade.

Angioedema Hereditário – Serão discorridas as novidades no tratamento desta doença rara e que estão disponíveis no Brasil para crianças acima de seis anos, o Inibidor de C1 Esterase.

Imunodeficiências Primárias (IDP) – Um debate sobre a nova opção de reposição de imunoglobulina humana, medicamento usado em 70% dos pacientes com IDP por via subcutânea. A cada 10 mil pessoas, uma tem imunodeficiência primária.

Cursos práticos – Serão cinco cursos com os temas Urticária e Angioedema, Imunoterapia, Testes de Desencadeamento com Fármacos: no consultório e no hospital, Prova de Função Pulmonar, Imunodeficiências e Dermatite Atópica.

Congressos Simultâneos:  XVII Congresso Luso Brasileiro de Alergia e Imunologia Clínica (SLBAIC), Simpósio do Cone Sul da SLAAI, Simpósio de Imunodeficiências Primárias (LASID) e o III Congresso Latinoamericano de Angioedema Hereditário.

Fonte: XLIII Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia