“Meu filho autista tem TOD”

Por Emanoele Freitas, mãe do Eros de 12 anos, que tem autismo e Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)

Desde os 2 anos de idade Eros apresentava um comportamento desafiador fora do normal. Digo isso porque toda criança nessa idade tem o desafio em graus, pois estão mudando e criando sua autonomia, mas a dele fugia a esse requisito, ia além.

Não sabia como lidar no início. Temos uma cultura de que as crianças devem obedecer e pronto. Se isso não ocorre, serão castigadas. Falo sempre isso para as mães, sei que todas em algum momento já bateu, ou foi um pouco mais severa e eu não fugi dessa regra, totalmente sem conhecimento e ouvindo a opinião dos outros que diziam “Se fosse meu filho dava logo um jeito”, “Se fosse meu filho ele não faria isso”, “Você é muito mole, quando ele crescer vai dar na sua cara”… E tantas outras falas que me incomodavam.

A vergonha pelo comportamento dele piorava. Isso mesmo, sentia muita vergonha de ele ser assim, e também raiva de mim por não estar sendo a mãe que daria conta dessa situação porque eu realmente não sabia lidar. E cada vez que batia nele me sentia a pior pessoa do mundo, me sentia ruim, e chorava. Até o dia que meu filho que fala apenas frases pontuais, depois de eu dar uma chinelada no bumbum dele, virou pra mim chorando e disse :”Por quê? Por quê?”.

Eu comecei a chorar junto e pedir perdão, disse que não faria mais, não queria ser daquela forma, não era assim que iria funcionar e senti isso nas palavras do meu filho – ele não sabia se controlar e não entendia porque me batia, beliscava etc… algo estava acontecendo com ele e ele não sabia explicar. Comecei, então, a conversar com médicos e estudar sobre o TOD. Queria entender como conseguiria amenizar pelo menos os quadros de agressividade dele.

Aos 6 anos Eros começou a usar medicação para redução da agressividade e aos 8 anos conheci a terapia cognitiva comportamental. Fui fazer meu primeiro curso em Análise do Comportamento em São Paulo. Ele não falar não me incomodava tanto quanto a agressividade e as crises de oposição no meio da rua e em casa.

Através da terapia comecei a mudar meu jeito de ser e a forma como lidava com ele. Comecei a utilizar as técnicas de antecipação, reforçador positivo e a buscar não fazer tanto reforçador negativo. Foi horrível no início, horrível mesmo. Eram horas de “luta”, horas que machucavam a mim e a ele emocionalmente.

Para mim era devastador, mas sabia que estava fazendo para o bem dele. Teve uma vez que ficamos três horas em uma situação muito complicada mas mantive na frente dele a pose e os procedimentos, quando finalmente ele cedeu e, entendendo que eu não mudaria, dormiu. Isso foi de 2 horas da madrugada até as 5h da manhã. Quando finalmente ele dormiu, eu desabei a chorar feliz, frustrada, machucada (arranhada, mordida, agredida a socos)… Era uma mistura de tudo. Fiquei sentada, olhando ele dormir, tão sereno, e tive a certeza: “Agora vamos em frente, eu sou tudo o que você tem, e não vou parar agora”.

Meu principal problema era a família – eles não entendiam que o comportamento do Eros não era proposital. E foi muito difícil eles compreenderem como funcionava a “não-punição” física, já que em muitos momentos ele me batia na frente de todos e eles achavam um absurdo eu me retirar com ele para um local onde só estivesse eu e ele e fizesse o procedimento.

Minha filha também era um dos fatores que me preocupavam muito. Ele batia muito nela, e usava isso pra chamar minha atenção. Comecei a ensinar a ela como proceder com ele também, com voz firme e postura, impedindo ele que conseguisse bater nela. Minha filha chorava comigo e dizia: “Eu amo meu irmão, mãe, mas não quero ele perto de mim”.

Os sentimentos dentro de mim eram horríveis: “Ter um filho autista e ainda com TOD?  Por que tudo isso conosco?”. Muitas vezes estava tão cansada que não conseguia levar adiante minha palavra e cedia. Mas isso só piorava as coisas, e a ficha caiu como um raio. Ele está crescendo, como vai ser quando ele tiver maior do que eu? Eu não podia ceder, não podia retroceder agora.

Hoje, aos 12 anos, vejo as pessoas falando: “Nossa como Eros está diferente!”, “Nossa, como ele melhorou!”. E fico feliz, mas ao mesmo tempo penso: “Dá bobeira pra ver?” Não posso fraquejar, fico repetindo isso o tempo todo comigo, o comportamento dele melhorou bastante, mas ele testa muito. E se der uma brecha, ele faz. Ainda tem o hábito de se irritar e perder o controle, mas hoje consigo fazê-lo ver que está passando do limite. Ele entende que está se descontrolando.

Não tenho ilusões de que a medicação será constante, ele nunca vai poder parar, mas já conseguimos um avanço e tanto. Eros não vai à escola atualmente. Ele já não aceita muitas coisas, como sala de aula pra fazer as mesmas coisas. Tenho problemas até para aceitar a terapia comum. Estou agora voltada às habilidades dele como o esporte, a música e a tecnologia.

Ele está crescendo apesar das limitações dele. Não aceita a mesmice. Tenho que pensar agora na habilidade para a vida adulta já que o atendimento pedagógico dele é na associação. Mas o professor da sala de recurso dele é muito dedicado e as reações dele na escola sempre foram boas. Depois de controlado o comportamento, todos conseguem lidar com ele normalmente.

Recebo algumas mães com filhos com TOD, e o maior problema são elas mesmas, principalmente, entenderem que pode ser complicado no início, mas que estão fazendo o melhor para o filho. Quando consigo que elas vejam o que eu passei e o que passo, elas entendem que não estou falando por bobeira e sim por conhecimento de causa. Muitas mães desistem e aí ficam achando que eu queria “prejudicar” seus filhos. Mas, por experiência nesses cinco anos, quando o comportamento piora e muito alguns meses ou anos, depois elas entendem que tudo era para evitar que isso acontecesse.

Muitos acham que Análise de Comportamento e que a terapia é “maldade”. Já ouvi isso acreditem! Mas é você mostrar, ensinar para alguém que aquele comportamento não é o correto. E quem quer seguir regras? Difícil, não é?

Hoje posso dizer que meu filho está caminhando para uma grande melhora, mas sou muito crítica e sempre quero mais dele, então seguimos com as regrinhas da Análise Comportamental.

* Emanuelle é escritora, pesquisadora, palestrante, mediadora escolar e familiar, além de ser presidente e fundadora da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA)