Fibromialgia: tem que ter fibra para encarar

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A jornalista Flávia Domingues sofre há anos com a fibromialgia. "Já tentei de tudo", diz ela (Foto: Acervo pessoal)

A jornalista Flávia Domingues sofre há anos com a fibromialgia. “Já tentei de tudo”, diz ela (Foto: Acervo pessoal)

Quando tinha 26 anos, a jornalista Flávia Domingues peregrinava por várias especialidades médicas. O motivo: descobrir a causa das dores pelo corpo todo, que a limitavam em atividades simples como levantar da cama ou pentear o cabelo. “De tão insuportáveis que eram (as dores) tinha que baixar emergência para tomar medicações mais fortes e aliviar”, relembra.

Por dois anos, Flávia passou por diferentes médicos para conseguir um diagnóstico. “Foram muitos tratamentos. Alguns falavam que eram problemas de coluna. Outros reumáticos. O fato é que nenhum era conclusivo, me entupia de remédios e as dores persistiram”. Hoje aos 37 anos, ela convive melhor com a fibromialgia, uma doença crônica que provoca dores em todo o corpo. A doença ainda é pouco divulgada e, até o momento, sem cura.

De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Fibromialgia, cerca de 6 milhões de pessoas sofrem com a doença, o que representa 2% a 3% da população. E são as mulheres na faixa etária entre 35 e 50 anos as mais atingidas. A peregrinação de Flávia por um diagnóstico ainda é uma realidade, pois ainda não há muita literatura sobre a fibromialgia.

“É muito difícil, até para os médicos, estabelecer se alguns itens são sintomas ou consequências da fibromialgia. Afinal, os distúrbios no sono e a constante sensação de fadiga são sintomas ou devemos assumir que uma pessoa que sente dor o tempo inteiro fatalmente não conseguirá dormir ou se concentrar normalmente”, pondera Paulo Renato Fonseca, especialista em dor e diretor da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED).

Dores atrapalhavam o sono

Flávia conta que sentia dores em diferentes partes do corpo. O sono também era outro problema. “Dormia e parecia que tinha ficado acordada a noite toda. Não descansava”. O diagnóstico só veio após uma consulta com Rosa Oaquim, fisiatria, área da medicina especializada no tratamento muscular. “Foi aí que comecei a me tratar e voltar a viver”, conta.

Ela passou um período tratamento com antidepressivos, acupuntura, hidroterapia e fisioterapia. Atualmente, os tratamentos disponíveis não eliminam a doenças, mas contribuem para aliviar a dor do paciente. Mudanças no hábito de vida também são importante como a prática de exercícios, algo que muitos pacientes tem dificuldades de começar por já estarem passando por um processo de dor crônica.

Segundo o especialista, os principais sintomas são dor generalizada, fadiga, dificuldades cognitivas, dormência e formigamento nas mãos e nos pés, palpitações e redução na capacidade de se exercitar. É comum a queixa uma dor intensa que se espalha pelo corpo saindo da nuca, ombros, tórax, região lombar, quadris, canelas, cotovelos e joelhos.

Projeto de lei

Por comprometer bastante a qualidade de vida, a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) busca classificar a fibromialgia como uma doença crônica no mesmo patamar de doenças como diabetes e hipertensão. De acordo com a parlamentar, atualmente o tema já está em debate na Câmara dos Deputados e a ideia é que se torne um projeto que estabeleça diretrizes gerais para o atendimento do SUS às pessoas acometidas pela doença, também chamada de fadiga crônica. Além disso, os pacientes mais graves terão a possibilidade de conseguir receber auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez pela Previdência.

Como aliviar a dor

Neuromoduladores e alguns medicamentos que aumentam os níveis de serotonina e noradrenalina cerebral também são indicados para tratar a fibromialgia. Analgésicos comuns e anti-inflamatórios não surtem um bom efeito. Isso porque o problema está na percepção da dor e não em um fator desencadeante.

A Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) é uma novidades e aliadas no combate a dor. Como a doença provoca alteração da percepção da dor pelo Sistema Nervoso Central, o TMS é uma técnica de neuromodulação não invasiva vem sendo indicada recentemente para tratar o problema. A aplicação é por meio de um aparelho que cria um campo magnético que estimula o córtex motor primário, região do cérebro localizada na porção posterior do lobo frontal (“testa”).

Esse estímulo leva à diminuição da dor aguda e várias condições dolorosas crônicas, devido a estimulação dos sistemas moduladores de dor localizados nessa região do cérebro. É um procedimento considerado seguro, usado também para tratar a depressão e Doença de Parkinson.

Praticar atividade física e dormir bem pode ajudar

Outra mudança fundamental é a prática de exercícios e sessões de fisioterapia.  “A escolha da atividade deve depender da dor descrita, e da capacidade de cada paciente. As mais leves, como caminhadas, são as mais indicadas para começar. Depois a pessoa pode se sentir apta a praticar outras modalidades, como o Pilates”, indica Paulo Renato. Em alguns casos a fisioterapia é o exercício mais indicado, principalmente por conta do acompanhamento especializado.

O especialista também destaca que é importante dormir bem, investir em terapias relaxantes. Outra dica é manter um diário da dor. “O paciente com fibromialgia sente dor o tempo todo, mas em determinados momentos ela pode ser agravada. Por isso, estar atento ao que aumenta a dor é fundamental. Má postura, alimentos e até uso de alguns objetos podem ser esse gatilho. Ter um caderninho para anotar esses momentos de dor aumentada ajuda na investigação e no tratamento”, explica Paulo Renato.

* Colaboração de Flávia Domingues para o Blog Vida & Ação