Essa Coca é Fanta: quando a diversidade chega às empresas

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Essa Coca é Fanta, e daí? A boa e engajada sacada de marketing da Coca-Cola, em tom de provocação, conquistou não somente o público-alvo em plena semana dedicada a celebrar o Dia Internacional do Orgulho LGBT (28 de junho), mas todos os que torcem pelo respeito à diversidade. Distribuída numa ação interna para funcionários da empresa no Rio, a latinha contendo Fanta Laranja com a embalagem da Coca, incorporando de forma bem humorada o slogan que brinca com uma popular reação homofóbica, acabou inundando as redes sociais. E foi tema de muitos debates ao longo da semana (veja matéria aqui). Mas, para além do marketing, será mesmo que dentro das empresas o preconceito está sendo vencido?

Pesquisa da Randstad, multinacional holandesa de recursos humanos, mostrou que, entre os brasileiros, 75% das pessoas afirmam trabalhar em empresas inclusivas, uma resposta que talvez seja dada mais para “agradar o chefe” do que com consciência já que, na prática, não é bem o que se percebe em muitas empresas por aí. Flavia Miranda, de 33 anos, porém, tem motivos de sobra para se inserir nesta parcela de colaboradores que não se sentem excluídos por sua identidade de gênero ou orientação sexual.

Representante comercial na Bayer há seis anos, ela diz que o apoio da empresa foi fundamental no momento em que ela e sua companheira, Sheila Cristina, 40, decidiram ter um filho. “Há três anos, realizamos uma fertilização in vitro e, assim, nasceu nosso filho, o Gael. Foram duas tentativas até que eu conseguisse engravidar. Nesse processo, a Bayer me apoiou e ainda pagou metade do tratamento. Então, quando retornei de licença-maternidade, decidi fazer parte do programa interno, o Blend, para auxiliar e encorajar outros colaboradores a falarem sobre a maternidade/paternidade entre homossexuais”, conta.

Aliados para defender a ‘mistura’ e combater o preconceito

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De acordo com a Bayer, o Blend faz parte de uma estratégia global da multinacional alemã no Brasil, com o objetivo de defender os direitos LGBT e lutar pela igualdade de oportunidades na empresa em todas as suas unidades no mundo. O nome foi escolhido pela representação da diversidade: uma mistura de opiniões e experiências – do inglês, blend significa mistura.

Criado há aproximadamente dois anos, o programa de voluntários do Blend é chamado de Aliados. Pessoas de diferentes localidades se voluntariaram a apoiar a causa LGBT dentro da empresa. No total, são 50 colaboradores no grupo. “Destes, 25 já participaram de um treinamento específico com o objetivo de disseminar informações a partir de uma abordagem correta e inclusiva”, informa a empresa. O Blend faz parte das ações do Comitê da Diversidade da Bayer, que traz abordagens relacionadas a questões religiosa, racial, de gênero, de pessoas com deficiência e de LGBT.

Para o presidente da Bayer no Brasil, Theo van der Loo, existe um preconceito inconsciente, e as organizações exercem um papel fundamental de combate à discriminação. “Diversidade deve ser prioridade nas organizações, que precisam ir além da discussão sobre o preconceito. Hoje muitas multinacionais têm uma política global de diversidade, com medidas que ajudam a estimular um ambiente de trabalho mais inclusivo. Mas é preciso também estar atento às necessidades individuais e promover condições igualitárias de desenvolvimento. É fundamental que todo o ambiente corporativo seja estimulado a valorizar a diversidade, a partir de ações efetivas”, afirma Theo van der Loo. O executivo é considerado uma referência em políticas inclusivas, após conquistar o prêmio de personalidade do ano na categoria Melhor Estímulo à Ação Afirmativa em 2015.

Grupo de voluntários ajuda a disseminar o respeito à diversidade dentro da Bayer (Foto: Divulgação)

Grupo de voluntários ajuda a disseminar o respeito à diversidade dentro da Bayer (Foto: Divulgação)

Comitê de Diversidade

Homossexual assumido desde os 18 anos, Petterson Reis, de 23 anos, cursava técnico em química no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet) no ano passado e realizou visita ao Parque Industrial da Bayer, em Belford Roxo. Após conhecer um pouco da rotina na empresa, pesquisou sobre a multinacional alemã para identificar os valores da empresa e as ações promovidas em favor do tema Diversidade.

Em fevereiro de 2016, entrou como estagiário de engenharia de processos e, hoje, é analista de meio ambiente e integra o Comitê da Diversidade, criado em outubro do ano passado com objetivo de reunir os colaboradores para debater temas de interesse, além de definir ações de engajamento e traçar estratégias de atuação da empresa.

Para Petterson, é necessário olhar além das diferenças. “Precisamos formar um ambiente cada vez mais agradável e inclusivo a todos. As empresas de grande porte estão levantando a bandeira da diversidade e saber que a Bayer se importa com essas questões é muito gratificante”, afirma o analista de Meio Ambiente.

O jovem explica a importância de uma grande empresa ter um Comitê da Diversidade. “Há 10 anos, essa ideia talvez não fosse discutida, mas as minorias estão presentes e precisam ser ouvidas. As pessoas sofriam o preconceito na escola e nas ruas e ficavam quietas. Com a criação de um Comitê, cada um vai saber que existe alguém para ouvi-lo e que a empresa apoia integralmente a inclusão de todos. As minorias sofrem no dia a dia. O Comitê tenta diminuir o preconceito”.

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Mais sobre o Dia Internacional do Orgulho LGBT

O Dia Internacional do Orgulho LGBT foi criado em 1969 após a “Rebelião de Stonewall”, em Nova Iorque. Naquele dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn reagiram a uma força policial que invadiu o espaço, após alegar vistoria na licença para venda de bebidas alcoólicas. Porém, o público se revoltou, provocando um tumulto reativo.

Há quase 50 anos, os protestos de Stonewall marcavam um começo para o movimento LGBT. Infelizmente, porém, a discriminação, a violência e a perseguição ainda existem. No ano passado, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 25 horas, uma pessoa LGBT é assassinada, vítima da “LGBTfobia”, deixando o país no topo da lista mundial de crimes contra as minorias sexuais. No total, 343 pessoas foram assassinadas, o número mais alto já identificado.

Segundo o antropólogo Luiz Mott, responsável pelo site “Quem a homofobia matou hoje”, com a falta de estatísticas governamentais sobre crimes de ódio, os dados são subnotificados, evidenciando um problema com histórico sociocultural no país. Diante de um cenário onde o preconceito está enraizado, as pessoas procuram, cada vez mais, trabalhar em empresas que possuem os mesmos valores morais, ligados a uma cultura aberta e que promova integração social.

Fonte: Bayer, com Redação