Como evitar e tratar a incômoda dor nas costas

Boa parte dos brasileiros sofre com dor nas costas.  Problemas de coluna são as principais causas de falta no trabalho

Boa parte dos brasileiros sofre com dor nas costas. Problemas de coluna são as principais causas de falta no trabalho

Você já chegou do trabalho com aquela dor nas costas? Pois eu já. Muitas vezes. Principalmente por conta de horas a fio na frente do computador na redação ou mesmo em home office, sentada geralmente em postura inadequada. Mas é bom ter cuidado: uma hora essa incômoda dor pode nos derrubar e afastar do trabalho.

Neste Dia Nacional de Prevenção de Acidentes de Trabalho (27 de julho), especialistas alertam que as dores lombares são a maior causa de absenteísmo (falta no trabalho) dos brasileiros e afetam uma em cada dez pessoas. Segundo dados da Previdência Social, somente no primeiro trimestre deste ano foram mais de 24 mil afastamentos. Em média, 269 trabalhadores por dia foram afastados temporária ou definitivamente do trabalho por causa de problemas na coluna – um a cada cinco minutos.

Homens são os mais suscetíveis

Um estudo holandês, recentemente publicado em uma das mais importantes revistas de reumatologia do mundo, concluiu que os homens têm maior propensão a desenvolver lombalgias durante o trabalho, provavelmente por terem mais atuação em atividades com sobrecarga muscular.

Trabalhos que consistem na elevação de pesos frequentes causam maior número de lesões na coluna, comum entre trabalhadores da construção civil e até funcionários de serviços de saúde, obrigados a suportar muitas vezes o peso de pacientes para banho, procedimentos ou transferência de leitos.

“Quem trabalha mais de quatro horas na mesma posição, seja sentado ou em pé, geralmente, apresenta dores na coluna, além de má circulação, edemas e incômodos nas articulações dos membros inferiores. Quem trabalha com o uso frequente do computador, pode sofrer com tendinites (inflamação dos tendões)”, explica o ortopedista do Hospital e Maternidade São Cristóvão, Marcello Zaboroski.

“Atividades que demandam muito tempo sentado ainda não foram definidas como maiores causadores de dores lombares, embora possam piorar quadros pré-existentes”, afirma o médico André Manso, especialista em tratamento de dores crônicas.

Como tratar a dor crônica

“Na maioria dos casos a dor nas costas é tratada de forma satisfatória com medidas pouco invasivas com o uso de analgésicos e fisioterapia. Porém, alguns pacientes não têm a mesma sorte e evoluem com o que chamamos de dor lombar crônica, definida assim quando a dor nas costas ocorre por pelo menos três meses no ano”, explica André Manso, especialista no tratamento de dores crônicas.

Riscos de lesões na medula

O neurocirurgião Alexandre Elias, especialista em coluna pela Unifesp, alerta para os perigos de acidentes com lesões na coluna vertebral, que podem ser acompanhadas com lesão na medula. A medula espinhal passa pelo pescoço e pelas costas e é protegida pela coluna vertebral, que fornece suporte para o tronco; e cercada pelos discos vertebrais, que servem como amortecedores ao caminhar, correr ou saltar.

“A área comumente mais afetada nos acidentes de trabalho é a cervical e a torácica, sendo a cervical mais suscetível à gravidade, devido a sua mobilidade e possibilidade de atingimento do sistema nervoso e rompimento da medula, que pode ser lesada parcial e completamente e requer tratamento emergencial”, explica o especialista pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e pela Sociedade Brasileira de Coluna Vertebral (SBC).

De acordo com Elias, algumas funções são consideradas de maior risco de acidentes para a coluna, como aquelas executadas por motociclistas, caminhoneiros e motoristas em geral, carregadores e trabalhadores da área da construção civil, que contabilizam maior número de casos de acidentes.

Ele chama a atenção para a necessidade reforçar a prevenção dos acidentes, através da medicina do trabalho e itens de segurança orientados para a execução de atividades de risco de quedas e ferimentos, não apenas em práticas realizadas pelas empresas, mas no cumprimento das normas de segurança pelos funcionários, que muitas vezes negligenciam ao não usar os equipamentos necessários ou realizar atividades com as atenções devidas.
Dicas para evitar dor na coluna

Para impedir esses desconfortos e garantir melhor produtividade nas tarefas, o ortopedista Marcello Zaboroski dá algumas recomendações:

– Realize uma pausa a cada 40 minutos e se movimente com alongamento ou ginástica laboral (prática de atividade física realizada coletivamente no ambiente de trabalho);
– Ao sentar-se, observe se a cadeira está regulada de acordo com sua altura. A postura correta quando estiver sentado é com as costas apoiadas, o quadril e joelhos flexionados em ângulo de 90 graus, e os pés sobre o chão;
– Nos casos de exercer suas funções a maior parte do tempo em pé, deve-se evitar posições que flexionem a coluna.Ficar em pé por um longo período prejudica a região lombar e pernas;
– Além de realizar alongamentos musculares, é aconselhável vestir meias elásticas de suave compressão, não afetando, assim, o sistema circulatório e prevenindo o aparecimento de edemas;
– Outro fator que pode provocar reações negativas em nosso corpo é o estresse. Cefaleias, torcicolos, gastrite, hipertensão arterial, infarto do miocárdio e queda na imunidade são algumas manifestações do organismo que alertam a necessidade de se repensar nossa rotina de trabalho;
– Para fugir das tensões do dia a dia, procure trabalhar em um ambiente saudável, tente não exagerar no uso do café e, sempre que possível, mantenha o corpo em movimento. Aproveite os momentos de lazer. Nosso bem-estar depende de hábitos saudáveis para o corpo e mente.

Confira as dicas do neurocirurgião André Manso para socorro, prevenção e tratamento de pessoas com lesões na coluna:
Como socorrer?
Em caso de acidente com suspeita de lesão na coluna, o indivíduo só deve ser transportado por equipe de saúde preparada para os devidos socorros, como o Samu, que conhece as manobras necessárias e possui a prancha rígida para transportar a vítima e o colar cervical para imobilizá-la. Independentemente dos acidentes, o médico também destaca a necessidade de cuidados gerais de postura no dia a dia, mesmo em atividades leves, mas muito repetitivas e de longa jornada, que exijam da pessoa permanecer de pé ou sentado por muitas horas.

Mesmo que elas não apresentem risco de acidentes, em longo prazo podem causar desgaste e agravar problemas já instalados. Quanto ao tratamento, o neurocirurgião reforça a importância da emergência médica para um tratamento imediato, com objetivo de reduzir os efeitos no longo prazo. “O tempo que se leva para iniciar o tratamento após a lesão ter ocorrido é um fator fundamental que afeta diretamente no resultado e na eficácia do mesmo, que pode, em casos mais graves, envolver procedimentos cirúrgicos”.
Como prevenir?
Como o carregamento de peso é uma das causas do aumento da incidência de dores lombares, o ideal é limitar não só a quantidade de peso mas também a frequência com a qual o trabalhador é exposto a essas sobrecargas. ”Agências americanas limitam o carregamento de peso a no máximo 23Kg. É muito importante também que não se caminhe longas distâncias com a carga de peso sustentada”, acrescenta André Manso.

Programas que visam melhorar a ergonomia dentro do ambiente de trabalho também são fundamentais. Empresas ou corporações que adotam medidas como ajuste de cadeiras, mesas e suportes de computadores, bem como programas de alongamento periódicos, apresentam menores incidências de dores lombares em seus funcionários. “Atitudes individuais como atividades físicas frequentes e fortalecimento muscular são as principais formas de prevenção das dores lombares crônicas e não devem ser negligenciadas”, explica.

Como tratar?
O mais importante é o diagnóstico preciso. A coluna lombar é formada por inúmeras estruturas que podem ser causas de dores e os exames de imagem, como a ressonância nuclear magnética, que ajudam a localizar a origem do problema. Manso ressalta que uma ferramenta extremamente útil de tratamento são os “bloqueios diagnósticos”, infiltrações realizadas de forma precisa, com ajuda de algum método de imagem (raio-x, tomografia ou ultrassom).

“Por exemplo, se suspeitarmos que um músculo específico é a causa da dor do paciente, podemos infiltrar exatamente aquele ponto muscular, caso o paciente melhore, temos a certeza que aquele ponto era de fato a fonte da dor”, explica. Esses bloqueios podem ser feitos com várias estruturas como disco intervertebral, facetas lombares (articulações entre as vértebras), hérnias de disco, etc. ”É a única forma de termos certeza de onde vem a dor do paciente. Sabendo exatamente a fonte da dor, podemos traçar um plano de tratamento mais específico”, conclui o especialista.