Bullying: como coibir e erradicar a ‘brincadeira de mau gosto’

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Brincadeiras de mau gosto são muito perigosas porque podem passar despercebidas (“foi só uma brincadeira”) e porque arregimentam outros, direta ou indiretamente, para humilhar um colega. “O pior que um professor pode fazer é rir. As risadas estimulam o agressor a continuar”. O alerta é de Tania Paris, fundadora da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec), que há 13 anos capacita educadores para que desenvolvam habilidades emocionais e sociais entre crianças, adolescentes e pais de alunos.

Há poucos dias, um adolescente atirou e matou dois colegas e feriu mais quatro dentro da sala de aula em Goiânia. Colegas relataram que ele sofria bullying por exalar mau cheiro. A escola garante que não tinha conhecimento da suposta motivação do adolescente para tamanha brutalidade. Diante desta tragédia, reavalia-se, sobretudo, o papel dos educadores no ambiente escolar. Afinal, como os professores devem agir ao detectar uma “brincadeira de mau gosto” de caráter repetitivo? E quais os impactos que o bullying pode causar à saúde emocional de crianças e adolescentes?

Segundo Tania, na sala de aula, como em qualquer outro ambiente, o bullying não pode ser tolerado. “Mas a sala de aula é o espaço por excelência para aprendizado, e uma situação de bullying pode ser uma oportunidade dos alunos desenvolverem habilidades que lhes serão úteis para a convivência social por toda a vida”.

Tania ressalta que as brincadeiras de mau gosto devem merecer a mesma atenção que se dá a impedir o bullying. Não há necessidade de esperar que se tornem repetitivas para promover a reflexão dos alunos para entenderem o quanto são inadequadas”, garante.  A especialista destaca que os impactos variam conforme a intensidade do bullying, sua duração, o apoio que a criança/adolescente recebe e, sobretudo, conforme os recursos internos que tem.

“Um aluno com boa autoestima terá mais facilidade de identificar que não é culpado por estar sofrendo ameaças e, então, procurar ajuda. Aqueles que são mais inseguros e desprotegidos, podem ter sua autoestima minada pelo processo”, exemplifica. Ainda de acordo com ela,  autoestima é crucial para um bom desenvolvimento tanto emocional quanto intelectual e físico. “Adolescentes que perdem a autoestima podem perder o interesse pela vida”, adverte.

Ao Vida & Ação, Tânia listou as ações que educadores podem tomar para impedir o bullying na sala de aula.

 

Ações para coibir

O educador interrompe o comportamento e faz algo para que os alunos reflitam sobre as consequências do ato. A forma de provocar essa reflexão depende das condições que o educador tem. Se a escola tiver uma política anti bulllying clara e divulgada para todos, o que é altamente desejável, pode bastar lançar perguntas para que os alunos percebam que devem parar. Se não tiver, pode ser interessante fazer uma roda de conversa para discutir e combinar que não mais agirão daquela forma.

“Sabemos que, além do(s)  agressor(es) e da vítima, usualmente há testemunhas entre os alunos que se calam, dentre outras razões também por receio de serem as próximas vítimas. Então, quando a conversa não é feita só com os diretamente envolvidos, aumenta-se a consciência para que as testemunhas informem quando houver novos casos”, recomenda a especialista.

Ações para erradicar

Nessa categoria enquadram-se ações educativas para desenvolvimento de habilidades sociais. Essas ações não são isoladas e pontuais, que são tomadas quando o bullying ocorre. Ao contrário, são parte de um processo mais amplo para aumentar a empatia, para que considerem os sentimentos das outras pessoas, e desenvolvam capacidade de comunicação e resolução de problemas, para que possam ser mais assertivos, sem necessidade de recorrer a comportamentos violentos.

“Lembrando que a violência psicológica pode ser mais devastadora do que a violência física, precisamos ponderar que é comum os agressores não se darem conta de que seu comportamento é uma agressão e/ou não terem recursos pessoais para resolverem suas diferenças de forma saudável”, destaca.

Com certeza as ações educativas são mais eficazes a médio e longo prazo, até porque muitos desses comportamentos ocorrem longe da presença dos adultos que poderiam reprimi-los. Recomenda-se adotar uma metodologia de desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais, com resultados comprovados por avaliações, cuja implementação considere a capacitação dos professores.

 

Sobre a Asec

Segundo Miriam Guimarães, coordenadora de equipe de psicólogos e pedagogos, o papel dos professores é ensinar as disciplinas básicas, mas sobretudo, desenvolver capacidades emocionais, em benefício de todos em sala de aula. “O professor precisa se munir das competências necessárias para gerenciar o ambiente de aprendizagem, implementando a prática pedagógica, incentivando os estudantes a enfrentarem problemas que encontrarão no decorrer da vida e instigando-os a encontrarem a melhor maneira para resolvê-los”, diz.

De acordo com a especialista, essas são atitudes que auxiliam não somente os alunos, mas resultam diretamente na construção de um ambiente educacional saudável, o que favorece também o professor, podendo influenciar diretamente em seu desempenho profissional.

Segundo Tânia, a experiência da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec) com as metodologias internacionais que representa comprova que aulas de Educação Emocional criam um clima emocionalmente seguro, que os alunos apreciam e atuam para preservar, o que contribui não apenas para evitar violência, mas impactam diretamente a saúde emocional e o desenvolvimento acadêmico dos alunos.

A Asec representa no Brasil os programas “Amigos do Zippy”, programa de desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais e de responsabilidade para crianças até 8 anos; “Amigos do Maçã”, para crianças na faixa dos 9 a 10 anos e “Passaporte: Habilidades para a Vida”, para jovens a partir dos 11 anos, além de programas para Educação Emocional de pais e adultos.  Só em São Paulo, no ano passado, um total de 3.115 crianças do Ensino Fundamental I de 49 escolas municipais tiveram a oportunidade de participar do Amigos do Zippy.