Birra além da conta: sem limites para contrariar regras

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Toda criança tem seus momentos de birra. Mas há casos em que elas vão além dos limites, mostrando-se extremamente desafiadoras para pais e professores. Aos dois anos de idade, Eros, hoje com 12 anos, já apresentava um comportamento desafiador fora do normal. “Parecia que ele testava o tempo todo a paciência e a autoridade”,  conta a mãe Emanoele Freitas (veja em ‘Eu Vivo‘ o depoimento completo).

O que muitos confundem com características de uma criança mal-educada ou de personalidade forte, pode, na verdade, ser sinais do Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD). Crianças extremamente teimosas, agressivas quando contrariadas, com tendências vingativas e avessas a qualquer frustração podem apresentar intensas dificuldades em conviver socialmente com sua família e com figuras de autoridade.

O neuropediatra Clay Brites, pesquisador e doutorando do Laboratório de Dificuldades e Distúrbios da Aprendizagem e Transtornos de Atenção (Disapre), da Unicamp, diz que é frequente observar nessas crianças com TOD um descontrole emocional, além de terem um perfil de discussão frequente com os adultos, desafiando e se recusando a seguir regras.

“Não reconhecem erros e se ressentem demais, chegando a agir de forma vingativa”, explica Brites, que realiza uma aula online gratuita sobre o tema nesta segunda-feira (31), às 21h, pela Neuro Saber. O objetivo é  esclarecer aos pais e professores sobre o que é e como diagnosticar o TOD, além de dar detalhes sobre como é feito o tratamento. As inscrições podem ser feitas pelo site http://neurosaber.com.br.

Ainda segundo o especialista,o tratamento requer abordagem multidisciplinar e, principalmente, medidas psicoeducativas e estratégias de como agir e conduzir esta criança em casa e na escola. Conhecer bem o transtorno é o primeiro passo, naturalmente. Mas saber como lidar no dia-a-dia pode trazer ganhos rápidos e eficazes para todos os envolvidos”, explica.

O neuropediatra destaca a importância da abordagem médica do TOD nos dias de hoje. Para a Neurosaber, o conceito de psicofobia e o crescente papel da escola como lugar-comum das ações tanto preventivas como terapêuticas de transtornos neuropsiquiátricos se tornaram disseminadas e consolidadas. O médico tem, neste aspecto, o papel histórico de reduzir sofrimentos e ajudar a garantir o acesso ao bem-estar social, os quais também só podem ser efetivados com medidas realmente válidas no campo da saúde mental”.

Confira uma entrevista com Clay Brites:

1 – O que significa TOD?

O Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) é uma condição que leva a comportamentos altamente restritivos socialmente por gerar na criança e no adolescente acessos de raiva exagerados, sentimentos de vingança, intensa dificuldade em seguir regras e conselhos de outras pessoas, especialmente pais e autoridades. A presença de indivíduos com TOD em fase escolar pode levar a muitas intercorrências dentro da instituição e desarranjos intensos no relacionamento aluno-professor.

2 – Qual é a prevalência deste transtorno em crianças no Brasil?

O TOD pode ocorrer em qualquer pessoa, porém é mais comum em pacientes com Transtornos do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou em pacientes com transtornos de Humor. Não há estatísticas brasileiras. Os índices do DSM-5 e da OMS evidenciam de 3% a 11% da população infantil. Segundo alguns levantamentos, o TOD pode se manifestar em crianças de idade escolar (2% a 16%). . Embora os sintomas do TOD possam se manifestar em qualquer idade durante a infância, estima-se que entre os 6 e 12 anos os sinais se mostrem mais evidentes.

3 – Que fatores podem favorecer o TOD?

Os motivos podem envolver alguns fatores como, por exemplo, predisposição genética e um ambiente em que a criança viva como muitos favorecimentos, como pais divergentes, permissivos ou que não sabem estabelecer regras e limites. Esse transtorno pode ocorrer entre 3% e 11% das crianças. Os sintomas emergem mais a partir dos quatro ou cinco anos podendo persistir por toda a vida. Existem escalas de avaliação que ajudam a orientar no processo de diagnóstico. – Muitos pais têm dúvidas acerca da correlação que o TOD pode ter com o TDAH, mas é preciso esclarecer a eles que suas suspeitas se confirmam em muitos diagnósticos. Isso significa que em 50% dos casos os transtornos podem vir juntos, tanto o TOD quanto o TDAH;

4 – Quais as consequências do transtorno para a vida social?

Crianças que sofrem com o transtorno costumam ser discriminadas, perdem oportunidades e desfazem círculos de amizades. Não raro, sofrem bullying e são retiradas de eventos sociais e de programações da escola por causa de seu comportamento difícil. Os pais evitam sair ou passear com elas e muitas vezes as deixam com parentes ou em casa. Na família, este jovem causará desunião, sensação de desprezo pelos demais, má adaptação aos conselhos e pouco engajamento para atividades de interesse coletivo. Não raro, é comum seus portadores evoluírem para quadros depressivos e/ou transtornos de conduta, tanto a família quanto as escolas muitas vezes não sabem qual caminho seguir podendo a demora resultar em muitas complicações.

5 – Como o TOD deve ser tratado? Existe algum tipo de medicação?

Os familiares devem sempre procurar ajuda especializada, especialmente de psiquiatras infantis, neuropediatras e/ou psicólogos. Para os casos de TOD, o tratamento é multidisciplinar e envolve medicações, psicoterapia de manejo parental, suporte escolar e estratégias psicoeducativas. A consciência de uma criança está em desenvolvimento, por isso os pais devem se lembrar de que se iniciarem a educação de seus filhos observando sempre algumas dicas já estarão reduzindo de forma significativa a chance de terem filhos desafiadores num processo saudável de prevenção ao desenvolvimento de comportamentos anti-sociais e de evitar que estes se tornem adolescentes irascíveis sem qualquer autocontrole frente à mínima frustração. Quando tratadas de forma adequada, aproximadamente 65% das crianças deixam de apresentar as características do TOD.

Fontes: Neuro Saber e Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM)